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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A FESTA DOS HUMILDES


Eu e Silvia na "ceia natalina" no Templo das Águas (Colônia Maciel, Pelotas): o encanto da simplicidade.

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    Não há como ficar alheio à atmosfera que prepara os festejos para o 1º de janeiro. Foguetes já espoucam e se anuncia que não serão poucos na chamada "noite da virada". Nos supermercados, são muitas caixas deles que se apresentam de modo bem visível aos consumidores.

   Sim: "consumidor", "consumo", "consumismo" são termos que não podem ficar alheios a essa efeméride, como se fosse obrigatório se exercer ao extremo o verbo comprar.

   Mas nem todos estão fascinados por essa preparação calendária.

    Há poucos dias, eu vinha pela rua central da cidade quando reconheci um senhor que nasceu, cresceu e viveu até seus mais de sessenta anos no interior de nosso município e que há poucos meses veio residir num bairro. É solteiro e não tem filhos. Mora só.

    Ele passava por uma praça. A tarde estava quente. Parou à sombra das árvores e escolheu uma bem robusta, com um grosso galho e subiu nele como um menino. Ali ficou sentado, saboreando aquela paz, quem sabe um devaneio que lhe veio dos tempos da infância no campo.

     Pensei, então, em como será o seu "reveillon". Talvez nem conheça esse termo oriundo do verbo francês réveiller, que em português significa "despertar". Ainda assim ele sobreviverá a explosões coloridas pelo céu noturno, e, quem sabe, se compadeça dos cães e gatos que fogem apavorados com tamanha balbúrdia.

     Será que ele vai alterar sua rotina de homem solitário?
   
     Comprará um pequeno bolo, uma compota de doce, fará uma prece das que aprendeu pela boca da mãe, quando era guri?

    Os humildes também compõem este mundo que aparece, falsamente, na televisão, de roupa branca, fatias de peru assado, taças de espumante, sorrisos maquinais e uma alegria obrigatória que, não por acaso, provoca mal-estar e depressão em tantos que não suportam esse clichê.

    A simplicidade de um Jesus-menino nascido em estrebaria foi engolida pelo saco do Papai Noel. Comemos o presépio e trocamos presentes em "amigos-secretos" nos quais desejamos que fulano ou fulana não sejam os papéizinhos escolhidos por sorte ou por azar e - não raro - por razões fúteis...

    Os humildes estão em suas casas também humildes em todos os Natais e 31 de dezembros que vivemos e que viveremos, muitos sem uma gota de bebida alcoólica na boca porque são religiosos ou porque seu estado de saúde não lhes permite esse exagero.

    Os humildes talvez não tenham tido jamais uma ceia natalina, sopa de lentilhas, panetone, e temem os foguetes porque sabem que alguém - um parente do sicrano - perdeu a mão ou parte dela com essa arma com que se tenta chamar atenção em festas e em comícios.

    Mas os humildes fazem a sua festa, de modo silencioso: é a certeza de que haverá um outro dia, com sol ou com a chuva que se espera para se amainar a estiagem; é a alegria de receber uma visita ou de visitar uma pessoa - um outro humilde - e a conversa seja em tom calmo mas amável, e um deles lhe pergunte:

   - aceita um mate?

   A simplicidade desse gesto é a comunhão espiritual de que tanto precisamos para sermos autênticos com nós mesmos em todos os dias do ano.
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               Piratini, 30 de dezembro de 2011.




             JUAREZ MACHADO DE FARIAS




1 comentários:

Anônimo disse...

Um belo texto, sem dúvidas: belo pelo conteúdo, por induzir à reflexão de uma realidade "oculta"; e belo pela forma, diante de sua clareza, concisão e precisão, em suma: pelo seu estilo. É a descrição de um mundo real que não integra o mundo das aparências forjado pelas mídias, cujos escopos primeiro e último é o consumo. Neste texto o real mostra sua cara, de forma real ... O texto lembra da grande maioria que não integra o teatro das aparências, construído artificialmente pelos grande interesses da dimensão sócio-econômica hegemônica.Sugiro ampla divulgação deste belo texto. Parabéns! Grande abraço! Paulo Taddei