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domingo, 8 de janeiro de 2012

MINHAS REFLEXÕES SOBRE UM MULHERÃO...

Simone de Beauvoir (Paris, 9 de janeiro de 1908 — Paris, 14 de abril de 1986), escritora francesa, filósofa existencialista e feminista.
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   Peça para um homem descrever um mulherão. Ele imediatamente vai falar do tamanho dos seios, na medida da cintura, no volume dos lábios, nas pernas, bumbum e cor dos olhos. Ou vai dizer que mulherão tem que ser loira, 1,80m, siliconada, sorriso colgate. Mulherões, dentro deste conceito, não existem muitas: Vera Fischer, Leticia Spiller, Malu Mader, Adriane Galisteu, Lumas e Brunas. Agora pergunte para uma mulher o que ela considera um mulherão e você vai descobrir que tem uma a cada esquina.

        Mulherão é aquela que pega dois ônibus por dia para ir ao trabalho e mais dois para voltar,e quando chega em casa encontra um tanque lotado de roupa e uma família morta de fome. Mulherão é aquela que vai de madrugada para a fila garantir matrícula na escola e aquela aposentada que passa horas em pé na fila do banco para buscar uma pensão de 100 Reais.

       Mulherão é a empresária que administra dezenas de funcionários de segunda a sexta e uma família todos os dias da semana.Mulherão é quem volta do supermercado, segurando várias sacolas depois de ter pesquisado preços e feito malabarismo com o orçamento. Mulherão é aquela que se depila, que passa cremes, que se maquia, que faz dieta, que malha, que usa salto alto, meia-calça, ajeita o cabelo e se perfuma mesmo sem nenhum convite para ser capa de revista. Mulherão é quem leva os filhos na escola, busca os filhos na escola, leva os filhos para a natação, busca os filhos na natação, leva os filhos para a cama, conta histórias, dá um beijo e apaga a luz. Mulherão é aquela mãe de adolescente, que não dorme enquanto ele não chega, e que de manhã bem cedo já está de pé, esquentando o leite.

          Mulherão é quem leciona em troca de um salário mínimo, é quem faz serviços voluntários, é quem colhe uva, é quem opera pacientes, é quem lava roupa pra fora, é quem bota a mesa, cozinha o feijão e à tarde trabalha atrás de um balcão. Mulherão é quem cria filhos sozinha, quem dá expediente de oito horas e enfrenta menopausa, TPM, menstruação. Mulherão é quem arruma os armários, coloca flores nos vasos, fecha a cortina para o sol não desbotar os móveis, mantém a geladeira cheia e os cinzeiros vazios. Mulherão é quem sabe onde cada coisa está, o que cada filho sente e qual o melhor remédio pra azia.

     LUMAS, BRUNAS, CARLAS, LUANAS E SHEILAS: mulheres nota dez no quesito lindas de morrer mas MULHERÃO É QUEM MATA UM LEÃO POR DIA.

             (Martha Medeiros).

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      O texto de Martha Medeiros pode ser incluído no gênero da crônica-ensaio à medida que usa linguagem incisiva e crítica sobre a condição usual referente ao termo "mulherão". A autora sinaliza que todos os homens, se perguntados sobre qual a descrição de um “mulherão”, atinarão apenas para atributos físicos como tamanho dos seios, medida da cintura, volume dos lábios.
   É um grito assumidamente feminista da cronista que não atenta para a possibilidade de que poderão haver homens com outra visão igual a das mulheres que, segundo ela, invariavelmente, responderão da mesma forma o que é um mulherão. Sim, Martha provoca: “Agora pergunte para uma mulher o que ela considera um mulherão e você vai descobrir que tem uma a cada esquina.”
    Ora, se a própria autora diz que há uma a cada esquina, parece-me que nem todas as mulheres são “mulherões”, assim, é possível que as que não se enquadram em tal perfil poderão responder de outra forma à questão. Enfim, uma mulher que se enxerga como objeto sexual ou que se preocupa meramente com sua beleza física talvez não tenha a noção do termo “mulherão” traçado pela cronista. Logo, nem todas as mulheres são mulherões.

    Martha Medeiros se posiciona diante do tema “mulherão” como alguém que exalta o gênero feminino de índole pertinaz em seu cotidiano, a que vence as adversidades, sempre com esperança, mesmo ante as injustiças sociais:

    "Mulherão é aquela que pega dois ônibus por dia para ir ao trabalho e mais dois para voltar, e quando chega em casa encontra um tanque lotado de roupa e uma família morta de fome. Mulherão é aquela que vai de madrugada para a fila garantir matrícula na escola e aquela aposentada que passa horas em pé na fila do banco para buscar uma pensão de 100 Reais."

     Por sua linguagem clara, o texto pode provocar no leitor sentimentos de reflexão acerca dos clichês de linguagem como “mulherão” e fazê-lo despertar para realidades que podem estar encobertas pelas linguagens midiáticas, por exemplo, que colocam como padrões físicos de beleza alguns tipos de mulheres que, não raro, invadem as telas das televisões para comercias de cervejas e automóveis, ou para figurarem em novelas de discutida qualidade.

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